Preciso de aplacar as saudades
de quando estiveste em mim
como ferro em brasa que queimava
e era forte e intenso doloroso e profundo
prazeiroso até ao tutano, até ao cerne
ardente quente e não querias ir nunca mais
porque eu cuidava dos teus olhos translúcidos
quando choravam e do teu coração quando vacilava
comovia-me a tua ingenuidade de pássaro desarvorado
comovia-me a transparência infantil do teu olhar
enternecia-me a maneira como te aninhavas no meu corpo
e fazias dele harpa com as tuas mãos suaves de quem ama
sem pensar, sem falar, sem tréguas indesejáveis
e então eras aragem, eras odor salgado de mar
em finais de Setembro, verde e cinzento
nunca foste amante de Primavera ou Verão
sempre tiveste o cinzento do fim de época balnear
do retorno do silêncio e do desassossego
da época de Levante nas praias já desertas de gentes
e esse verde dos teus olhos, paixão da natureza pulsante
infiltrada sob a tua pele morna derramada na espuma
das ondas que vinham já sem força desaguar em mim